Fernando Pessoa, o ilustre poeta lusitano já dizia: "Navegar é preciso, viver não é preciso".
Mas o que poucos sabem ou param para pensar é sobre o real sentido da palavra "preciso" nesse verso. Embora de sentido discutível, somos da corrente que interpreta que navegar é uma ciência exata e, como tal, conta com cálculos e instrumentos de precisão para atingir os seus objetivos. Mesmo nos primórdios da navegação, um navegador já dispunha dos mais variados recursos para traçar e seguir as suas rotas.
Das bússolas rudimentares aos giroscópios eletrônicos, dos astrolábios e sextantes até os mais recentes sistemas de posicionamento global (GPS), das disputadas cartas náuticas guardadas sigilosamente pelos velhos capitães aos computadores de bordo, das sondas de mão aos scanners de varredura de fundo, a navegação passou do empirismo ao puro estado da arte, ou seja, a precisão absoluta.
Mas a vida, meu amigo, essa que insistimos em levar no dia a dia, essa é totalmente imprecisa. E por mais que tentemos direcioná-la por rígidos planos e metas, vez por outra somos surpreendidos com guinadas bruscas, arribadas e até desvios de 180 graus. Os mais versados na arte da navegação vão entender de pronto os termos aqui empregados, mas tenha certeza de uma coisa, viver é se surpreender a todo o momento! E isso é muito bom, pois se a vida fosse tão exata e previsível, morreríamos de tédio em pouco tempo.
Digo isso de cátedra, pois já tracei rumos para serem singrados por uma embarcação, assim como também rumos para serem seguidos na vida. Os primeiros me levaram aos destinos pretendidos; é bem verdade que com alguns pequenos desvios de rota, mas nada que pudesse inviabilizar a meta inicialmente estabelecida. Já com respeito aos planos para a vida, perdi a conta das mirabolantes reviravoltas que se sucederam. Mas isso não é nenhuma lamentação ou pesar, pois aprendi a tirar proveito dessas situações, superando sempre os solavancos e estabelecendo logo em seguida novas metas para serem alcançadas.
Desculpe-me pelo clichê, mas nessa vida louca, quando uma porta se fecha, aparecem logo duas outras a nossa frente. E talvez, pela imprevisibilidade das escolhas, somos levados a novos desafios e conquistas. São os tais saltos evolutivos que acontecem depois de um período de estabilidade ou estagnação. Por isso amigo, fique atento para os sinais que aparecem a sua volta, ou melhor, dentro de você. Lembre-se, viver não é preciso, viver é estar preparado para o inesperado, é saber tirar o melhor de todas as situações, por mais absurdas que elas sejam.
Eu não poderia terminar essas linhas sem falar da canoagem, mesmo porque foi através dela que pude vivenciar uma boa parte das minhas experiências de vida. Inicialmente, o que era para ser um mero lazer de fim de semana, acabou tornando-se uma paixão e fruto de inspiração para um projeto de trabalho. E depois de mais uma turbulenta mudança de planos, lá estava eu escrevendo as primeiras linhas do “Manual do Canoísta de Fim de Semana”. O final dessa história você já sabe!