Arawak Canoagem Roteiros Cursos Certificados Instrutores Saiba Mais Galeria de Fotos Dicas Fale Conosco  


Cadastre seu e-mail e receba nosso informativo


Assinar Remover



A canoagem como terapia
Data: 13/06/2009
Por: Luis Vitor Hilsdorf
 

A Canoagem abordada neste livro (site) vai além da atividade física e esportiva, para entrar num campo mais etéreo: as necessidades da alma, a comunhão com a natureza e o encontro com Deus. Não sou uma pessoa religiosa, nem sigo nenhum credo, mas consigo encontrar o equilíbrio necessário para a vida e enxergar Deus nas demonstrações da Natureza.

Tenho amigos que se encontraram na Canoagem, outros que a usam como fuga para o estresse do dia-a-dia. Para mim, ela é tudo isso e muito mais, uma verdadeira sessão de terapia para o corpo e o espírito. A maior parte das vezes que me fiz ao mar, não levei comigo problemas para serem diluídos ou solucionados por “osmose”. Porém, houve ocasiões em que comecei a remar “envolto por nuvens negras” e retornei horas depois com a alma mais leve.

Vivi experiências maravilhosas, guardei imagens na memória e compartilhei com amigos aventuras marcantes. Fazer dessa Canoagem um estilo de vida foi conseqüência natural das lições aprendidas com a Natureza. Das diversas situações narradas por amigos ou vivenciadas por mim, gostaria de tentar transmitir aos iniciantes, a singularidade de alguns momentos mágicos, sintetizados agora nas pequenas histórias que se seguem.

REMANDO EM ÁGUAS AZUIS

A paixão pelo mar acabou levando-me a formar uma boa biblioteca com temas náuticos. É verdade que a grande maioria dos livros é de caráter técnico, existindo porém alguns romances. Um deles, “O Navegante” de Morris West, que fala da saga de um historiador em encontrar uma ilha perdida no Pacífico, refúgio dos grandes navegadores polinésios, abriu-me as portas para “viajar” no espaço-tempo. Certas vezes, quando remava pela baía de Santos, com suas águas turvas, fechava os olhos e mentalizava o “Cântico dos Grandes Navegantes”:

“Guia as mãos que sobem e descem os remos.
O céu vai passando todo o tempo,
Mas a força vem para nós todo o tempo...”

Nessa atmosfera transcendental, conseguia me enxergar remando por águas azuis, cercado por recifes de coral e perfume de flores tropicais... Tudo era muito rápido mas, o relaxamento e a satisfação eram imensuráveis. É impressionante perceber o poder da mente sobre o corpo. Não é preciso estar em transe no Himalaia e nem ser monge, para poder estar envolto numa atmosfera leve e acolhedora, principalmente quando se flutua num caiaque, em total comunhão com as águas.

MELODIA AO LUAR

Era mais uma noite de “Remada da Lua”! Eu explico: temos um grupo de canoístas que, nas noites de lua cheia e céu aberto, sai para uma confraternização especial. Não é apenas uma remada, é um momento singelo e intimista, cada um o absorve à sua maneira. Pois bem: numa dessas noites, quando já voltávamos por um dos rios do nosso litoral, ouvimos um som envolvente e acolhedor... por instinto, quase que instantaneamente largamos os remos e ficamos à deriva... Era um chamado da floresta, um som primitivo e doce ao mesmo tempo. Não sei por quanto tempo ficamos inebriados por aquele som, acho que o transcendemos para chegar aos mais puros sentimentos. Aquele som de flauta, composto intuitivamente pelo nosso amigo Rino nos fez levitar, purificando a alma e fortalecendo a nossa união. Um abraço fraternal selou definitivamente o significado daquele momento.

ESCULTURAS VIVAS

Dentro do nosso eclético grupo de canoístas, não poderia deixar de falar de uma pessoa muito especial: Fernando Mota. Músico por vocação e empresário da pesca por profissão. Uma pessoa que fez do mar a sua vida. Fernando foi um dos precursores da Canoagem em Santos, influenciando diversos amigos a descobrirem o novo esporte. É uma pessoa com muitas histórias pra contar, muitas lições para se aprender. Certa vez em sua casa, enquanto conversávamos animadamente sobre as nossas aventuras, deparei-me com uma fotografia bem familiar: um rio de águas espelhadas com a vegetação do mangue ao fundo. Tudo muito normal, até ele tirar a foto da parede e com olhar de artista, identificar figuras que haviam se formado com a dupla imagem refletida nas águas. Coisa de poeta, momento de sensibilidade, leveza do espírito ... eram verdadeiras esculturas vivas que haviam sido cristalizadas pelas lentes desse veterano canoísta, num simples dia de remo.

NOCTILUCAS

Logo que me casei, aluguei um pequeno apartamento num prédio bem antigo de frente para o mar. Era tudo o que eu queria, a possibilidade de ter uma garagem náutica no “quintal de casa” e a alguns passos da água. Morei ali somente até minha filha nascer, porém nunca saí tanto para o mar como naquela época. Antes de ir para o trabalho ou nos finais de tarde com horário de verão, era sempre maravilhoso poder estar em contato com a água. Em muitas dessas saídas, tinha minha esposa Vânia por companhia; remávamos muitas vezes até o anoitecer e ficávamos flutuando à deriva, contemplando a lua e as estrelas. Numa dessas noites, enquanto remávamos lado a lado, Vânia notou que o rastro deixado pelo meu barco era azul. Só então ela percebeu que o seu barco também deixava o mesmo rastro e além disso, as remadas também provocavam manchas azuis na água. Fiz um pouco de mistério em torno do assunto e criei um clima de magia, associando o fato à nossa leveza de espírito. Naquela noite, mesmo depois de contar a verdade sobre o fenômeno das “marés queimadas” devido à presença dos noctilucas (*), era gostoso deixar a fantasia superar a realidade.

(*) - Protozoários luminescentes, da ordem dos Dinoflagelados, pertencentes ao plâncton marinho.

FILHOS DE PEIXE

Tenho um amigo canoísta, que apesar das inovações tecnológicas, ainda insiste em remar num velho caiaque chamado K-5. É um barquinho “pré-histórico”, que se assemelha ao lendário modelo “Rob Roy”, o qual foi adaptado e difundido na Europa por John McGregor, há 130 anos atrás. Estou falando do “velho” Valdir, aquele que me fez despertar a idéia de ir além na Canoagem. Pois bem, conheci o Valdir no mar, remando na sua relíquia e para minha surpresa, trazendo os dois filhos junto: Thales, 5 anos e Camilo, com 9 anos na época. Loucura, irresponsabilidade, não sei... eu só sei que esses meninos cresceram acompanhando as aventuras do pai, suas histórias, suas conquistas e seu profundo respeito para com a natureza. Valdir, que sempre esteve envolvido em ambientes de trabalho altamente estressantes, via no mar e na canoagem o seu ponto de equilíbrio, sua válvula de escape. Hoje, mais de 10 anos já se passaram daquele primeiro encontro. Seus filhos já são homens, o mais velho é biólogo marinho e o mais novo está na fase de escolha entre o surfe profissional ou uma vaga na Faculdade. Os dois seguiram o “caminho das águas” e o pai, orgulhoso por ter encaminhado bem os filhos, ainda continua remando com a mesma garra e entusiasmo no seu velho K-5.

A MISSÃO

Era mais um final de tarde de verão. A praia de Maresias, no litoral norte de São Paulo, estava meio entorpecida pelo intenso calor do dia quando, de repente, um homem passa aflito, indo de encontro aos salva-vidas.

Minha primeira reação foi levantar da rede, onde descansava em sonolento e profundo processo digestivo; logo em seguida, olhei para o mar procurando o problema, não constatando nada a princípio; pelo sim, pelo não, passei a mão no meu remo e fui em direção ao caiaque que havia deixado na areia. Quando me aproximei da água, fui abordado por aquele homem em pânico, apontando para um jet ski, que estava longe e à deriva, dizendo ser sua filha de 12 anos. Imediatamente parti em direção da menina, afirmando ao pai que ia trazê-la de volta.

Não era a primeira vez que utilizava o caiaque para tirar alguém da água, mas a minha surpresa estava por vir. Remei vigorosamente até o jet pensando na agonia da garotinha e no desespero daquele pai. Porém, para minha surpresa, a garotinha não era tão frágil assim e estava totalmente tranqüila. Nesse momento, chegaram os salva-vidas, que por não estarem munidos com um barco a motor, nada podiam fazer. Diante do quadro, fui eleito por unanimidade para rebocar aquela geringonça. E lá fomos nós, de volta para a praia, com escolta a nado, acalmar a angústia de um pai aflito.

Ganhei o dia, a gratidão daquele pai e a simpatia dos guarda-vidas, voltando com a alma mais leve para a sombra da minha rede, para logo em seguida cair em sono profundo.

PARA REFLETIR ...

Esses momentos mágicos, dificilmente seriam possíveis sem a presença do caiaque que, diferente de qualquer outra embarcação mostra-se tão versátil a ponto de estar ora cercado por águas oceânicas levando-nos por entre ilhas, baías, enseadas e ora estar penetrando por um igarapé de águas rasas, no meio da Mata Atlântica.

A sensação de se deslocar na água com a força do próprio corpo, conduzindo o barco por lugares onde outros não chegam, dá ao canoísta a verdadeira dimensão da palavra “liberdade”. Depois de assimilar a técnica, o canoísta agirá por instinto, assim como os peixes que deslizam nas águas e as gaivotas que cortam os céus, fluindo em comunhão com a vida. Finalizo este texto, lembrando o poema musicalizado por Milton Nascimento que diz mais ou menos assim:


Brigam Espanha e Holanda
pelos direitos do mar.
O mar é das gaivotas,
que nele sabem voar.
Brigam Espanha e Holanda
pelos direitos do mar.
O mar é dos veleiros,
que nele sabem navegar.
Brigam Espanha e Holanda
por que não sabem que o mar,
é de quem o sabe amar.

Extraído do livro “Canoagem, Aventura e Ecologia – Fluindo com a Natureza”, de 1997

 
Fonte: Canoagem, Aventura e Ecologia