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Travessia Rio - Santos 2009
Data: 22/04/2009
Por: Alexandre Purcino e Eric Schonwald
 

Primeiro dia – 14/Fev/09 – Copacabana (Posto 6) – São Conrado

Saímos de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro por volta da 1:00 da manhã. Estava chovendo muito na estrada e quem foi guiando a maior parte do caminho foi o nosso amigo César, que também trouxe o carro de volta. Já em solo carioca, demoramos um tempo para chegar em Copacabana, pois as placas da estrada são um pouco confusas.

Ao chegarmos ao final da praia de Copacabana, paramos em frente a um quartel do Corpo de Bombeiros (3º. Grupamento de Salvamento Marítimo), onde o Alexandre entrou para pedir orientação sobre o melhor local para embarcar com segurança em nossos caiaques, aproveitando também para perguntar onde poderíamos tomar um bom café da manhã. A resposta foi “aqui!”. Desta forma, o Sargento Ricardo Campos pediu autorização ao Capitão Rodrigo Maia, que não só nos permitiu usar as dependências do Corpo de Bombeiros, como ainda nos deu algumas dicas de como poderíamos desembarcar no Recreio dos Bandeirantes, já que estávamos saindo tarde e não chegaríamos a Pedra de Guaratiba à luz do dia. Saímos então do acesso à praia, que fica ao lado do 3º. GSM, às 10:50, rumo ao Recreio dos Bandeirantes.

Logo na saída, quando estávamos posicionando o barco na água, uma onda nos surpreendeu e fez o casco bater contra a areia, entortando o leme. Refeitos do susto continuamos em direção ao Recreio. Porém, quando chegamos à Tijuca, nos deparamos com um mar muito grande. Para evitar mais surpresas e possíveis quebras, decidimos voltar a São Conrado, onde o mar parecia estar bem menor, porém desembarcamos com ondas de 2 metros. Perdemos nossa bomba e o guia de praias do Rio de Janeiro.

Acampamos na sede da Associação Brasileira de Vôo Livre, seguindo orientações do Miguel, que trabalha lá. Na correria para tirar tudo do caiaque e levar para a área de acampamento que nos cederam, nos revezamos entre quem ficava carregando as coisas e quem ficava de olho nelas. Em algum momento de distração, alguém que devia estar passando por perto abriu um de nossos sacos estanque e levou as máquinas fotográficas, o rádio transmissor que usaríamos em caso de emergência e o celular do Alexandre.

Distância percorrida: 20 km (avanço real de 12 km, devido ao retorno a São Conrado)

Segundo dia – 15/Fev/09 – São Conrado – Pedra de Guaratiba

Ondas de 2 metros formando tubos (ASSUSTADOR!). Tentamos entrar umas 5 ou 6 vezes no mar, pois as ondas sempre nos empurravam de volta para a areia. Um rapaz de nome Roque, do Paraná, estava passando pela praia e nos ajudou a empurrar o barco para podermos passar as ondas. Para isto, tirou o sapato e a camisa e entrou na água de calça, até a cintura. A ajuda dele foi fundamental, pois o mecanismo retrátil do leme estava avariado. A força das ondas era tamanha que chegou a comprometer a integridade estrutural do caiaque, o que nos fez temer pela continuidade da nossa empreitada. Remamos até a Praia do Perigosinho, onde paramos para descansar. Em seguida, entramos na Baía de Sepetiba através do canal que separa o continente da Restinga da Marambaia. A entrada do canal estava bastante assoreada, havendo alguns encalhes. Próxima parada, Pedra de Guaratiba, onde dormimos. Seu Nestor nos cedeu o banheiro e ofereceu café da manhã. Esse senhor foi de uma gentileza sem tamanho, pois chegou até a rastelar o trecho de areia em que iríamos acampar.

Distância: 42 km 

Terceiro dia – 16/Fev/09 – Pedra de Guaratiba - Ilha de Jaguanum

Saímos da frente da casa do Seu Nestor às 7:30 e chegamos a Ilha de Jaguanum às 13:00. Um vento nordeste violento dificultou a viagem. Na ilha conhecemos o Sr. Mário e D. Mila, que são velejadores, e foram muito solidários conosco. Tomamos banho na casa deles e guardamos os remos na garagem. Almoçamos e jantamos na Praia do Sul, no bar da D. Conceição. No barco apareceram algumas trincas e o banco do remador de proa começou a se soltar, resultado de nossas aventuras em São Conrado, de forma que passamos boa parte da tarde consertando o caiaque com fibra de vidro e resina.

Distância: 30 km

Quarto dia – 17/Fev/09 – Ilha de Jaguanum – Praia Vermelha (Ilha Grande)

Saímos da Ilha de Jaguanum às 7:00. No Porto de Sepetiba houve momentos de tensão, pois os navios manobraram muito perto da nossa rota. Para evitar uma possível colisão, ficamos esperando junto às bóias de sinalização do porto. (TENSO!) Dali atravessamos direto para a Ilha Grande, onde fizemos uma parada para almoço na Praia de Japaris. Cortamos caminho por um trecho de pedras na Lagoa Azul e na Ilha Longa, próxima à Praia de Araçatiba, de maneira que tivemos que desembarcar para conduzir o barco por entre as pedras. Acampamos na Praia Vermelha. Usamos o banheiro do bar do Sr. Christian e dormimos ao lado da casa do Sr. Miguel, que é biólogo marinho, e que nos abasteceu com água na manhã do dia seguinte.

Distância: 50 km

Quinto dia – 18/Fev/09 – Praia Vermelha (Ilha Grande) – Martim de Sá (próx. Pta. Juatinga)

Saímos da Praia Vermelha às 7:30 com destino à Ponta da Juatinga. Durante a travessia vimos que o mar estava tranqüilo e sem vento. Então decidimos aportar em Martim de Sá, chegando às 12:30. Mesmo com mar calmo, pegamos a Ponta da Juatinga agitada, o que só melhorou após passarmos pela ponta que fica ao sul do farol. Almoçamos no camping do S. Maneco e fomos visitar o Encontro das Águas, onde os rios da região desembocam no mar. Muito bonito! Depois disto, pegamos a trilha para a Praia do Pouso, para podermos telefonar, sendo uma subida de 40 minutos. Na volta tomamos banho, fizemos um lanche e pegamos dicas com S. Maneco para o nosso próximo dia de viagem.

Distância: 27 km

Sexto dia – 19/Fev/09 – Martim de Sá (próx. Ponta da Joatinga) – Picinguaba (Ubatuba)

Acordamos às 4:30 para passarmos cedo pela Ponta Negra. Saímos às 6:15 e o trajeto foi relativamente tranqüilo. Paramos na Praia Negra às 8:15 onde tomamos café da manhã. Saímos rumo à Praia do Cachadaço, em Trindade, por volta das 9:15. Chegando perto, o vento estava favorável, e decidimos remar direto até a Praia do Camburi. O costão entre Trindade e Camburi estava com mar agitado, mas mesmo assim, não tivemos maiores problemas. Camburi é uma praia muito bonita, onde encontramos membros do Projeto Tamar realizando a soltura de duas tartarugas. Depois remamos para a Praia de Picinguaba, pois tínhamos como objetivo pegar um ônibus com destino a Ubatuba para sacar dinheiro e comprar comida, que já estava no final.

Paramos em Picinguaba às 15:00 e nos informaram que o próximo ônibus partiria às 15:20. Corremos com tudo e chegamos ao ponto às 15:19, mas o ônibus já havia partido e o próximo seria somente às 17:00. Fomos até uma vendinha verificar se aceitavam cartão de crédito, mas como a resposta foi negativa, nos indicaram o Picimbar, do Sr. Peter e sua esposa, onde almoçamos e conseguimos “sacar” dinheiro pelo cartão de crédito. O peixe estava muito bom! Eles também nos disponibilizaram ducha e banheiro. Frase do dia lida no Picimbar: “Cozinheiras magras não são confiáveis”

Mais tarde, um pescador local, o Cacau, nos ofereceu o seu rancho para pararmos o barco, guardarmos os remos e montarmos a barraca. O terreno era muito íngreme e acabamos dormindo em uma inclinação de uns 30 graus.

Distância: 37 km

Sétimo Dia – 20/Fev/09 – Picinguaba (Ubatuba) – Praia das Sete Fontes (Ubatuba)

Primeira parada na Ilha do Prumirim. Segunda parada na Praia Vermelha do Sul, com pequenas ondas na saída e na entrada. Almoçamos no Bar do Saquinho, onde a Flávia nos atendeu. Lugar muito legal. Tomamos uma ducha por lá.

Remamos para a Praia das Sete Fontes, onde dormimos. Jantamos no Quiosque Raios de Sol do Sr. Agnelo e D. Mercedes. Usamos banheiro e chuveiro do Sr. Valter. O jantar estava magnífico. Melhor refeição da viagem. A farofa de banana da D. Mercedes e o suco de folha de mexerica do Sr. Agnelo deveriam constar nos melhores guias gastronômicos!

Distância: 38 km

Oitavo dia – 21/Fev/09 – Praia das Sete Fontes (Ubatuba) – Baraqueçaba (São Sebastião)

Primeira parada na Praia do Cedro do Sul (Ubatuba). O Guia de Praia 4 Rodas diz que é uma das praias mais bonitas do Brasil. É uma praia bonita, porém não tem nada de diferente de outras lindas praias que visitamos ao longo de nossas viagens de caiaque.

Segunda parada, Praia da Lagoa (Ubatuba), próxima à Ponta Aguda. Tem um rio legal, por causa da correnteza que leva até a foz. Deste ponto, atravessamos diretamente para Ilhabela, em mar aberto, com destino à Ponta das Canas. Vimos um grupo grande de golfinhos próximo ao caiaque.

A travessia foi longa, com uma suave (e bem suave mesmo!) brisa a favor. Nas proximidades de Ilhabela o trânsito de lanchas e jet skis era muito intenso, com algumas lanchas passando imprudentemente próximas a nós e com velocidade incompatível com a segurança de todas as demais embarcações que trafegam pelo canal.

Terceira parada na Praia da Armação (Ilhabela) para descanso e telefonemas. No Canal de São Sebastião, vimos ancorado o veleiro Aysso, da família Schürmann. Pena que eles não estavam por lá! Teria sido para nós uma honra conhecê-los pessoalmente.

Chegamos a Baraqueçaba às 19:15, já escuro. O Alexandre encontrou o Fábio e a Renata, sobrinhos da Luciana, sua namorada, que estavam passando o Carnaval por lá e que nos deram uma ajuda de irmão, levando-o para sacar dinheiro e fazer compra de esparadrapo na farmácia e supermercado.Comemos pizza. SHOW! Dormimos no Bar Almirante / Náutica Baraqueçaba onde usamos banheiro e ducha.

Distância: 49 km

Nono dia – 22/Fev/2009 – Baraqueçaba (São Sebastião) – Barra do Una (São Sebastião)

Dia comprido. Barco na água às 8:00. Primeira parada Toque-Toque Pequeno. Segunda parada Barra do Saí. Lugar bonito. Várias paradas sem desembarcar durante o trajeto. Chegamos a Barra do Una, onde conhecemos a Sra. Bia, que nos ofereceu a casa para banho e banheiro. Jantamos pizza de novo, pois não havia arroz e feijão.

Distância: 37 km

Décimo dia – 23/Fev/09 – Barra do Una (São Sebastião) – Rio Itapanhaú (Bertioga)

Dia da roubada. Outra remada longa. Encontramos outros dois canoístas no meio do caminho e fomos conversar com eles. Chegando perto vimos que era o Felipe, que já era nosso conhecido, acompanhado do Maurício. Eles estavam fazendo o trecho Baraqueçaba-Guarujá. Remamos juntos por uns 15 km, o que nos ajudou a passar o tempo. Almoçamos no fim da Praia do Itaguaré (Bertioga) a refeição do remador (atum e milho em lata). Após a saída, nos separamos.

No fim da Praia da Enseada (Bertioga) onde iríamos acampar, a muvuca carnavalesca imperava, tornando impossível qualquer tentativa de acampamento naquele local. Encontramos no mar o Riesco, um bombeiro nosso amigo, que patrulhava as águas em um jet ski e cuja família tem uma pousada e escola de canoagem no alto do Rio Jaguareguava. Ele nos recebeu festivamente e ficou muito contente ao ouvir o relato de nossas peripécias. Nos convidou a ficar na casa-escola. Foi aí que a coisa desandou.

Sem querer, ele nos colocou em uma das maiores roubadas da viagem. A maré estava vazando e a pousada fica a 8 km da foz do Rio Itapanhaú. Remar contra a maré vazante não deveria ser um problema para nós, mas após 40 km de remada por dois dias seguidos e sem uma refeição decente se mostrou uma tarefa hercúlea, ainda mais porque, devido à entrada da lua nova, a maré estava no auge da sua força e nós no limite da nossa.

Quando chegamos na entrada do Rio Jaguareguava, a pouco menos de 1.000 m do nosso destino, a noite já havia caído a mais de uma hora e meia e nessa situação nos deparamos com um fato que seria cômico, não fosse a precariedade de nosso estado. Havia um banco de lodo de 0,5 m de altura e algumas dezenas de metro de comprimento impedindo a nossa passagem.

Demos meia volta e só fomos ajudados na segunda marina aonde buscamos socorro, onde o Sr. Baldan, da Marina Água na Boca, nos acolheu, oferecendo pouso, banheiro e chuveiro quente. Quando pensávamos que já conhecíamos tudo de mosquito, fomos apresentados ao polvrinha (mosquito pólvora), que embora diferente morfologicamente da mutuca e do borrachudo, por ser muito pequeno, provoca um incômodo superlativo, principalmente no Eric, que é alérgico, pois acha frestas na roupa, que outros hematófagos têm dificuldade em encontrar. É do Sr. Baldan uma das frases célebres da viagem: “É pena que o paraíso tem mosquito”

Distância: 48 km.

Décimo primeiro dia – 23/Fev/2009 – Rio Itapanhaú (Bertioga) – Ponta da Praia (Santos)

Último dia. Estávamos exaustos pelos dias anteriores, principalmente os dois últimos. Acordamos às 7:00 e saímos às 9:00, para desta vez, remarmos a favor da maré pelo Canal de Bertioga, que separa a Ilha do Guarujá do continente. Vimos uma cobra durante o café da manhã. A remada foi tranqüila, com duas paradas antes do Largo do Candinho e uma para almoço no píer que fica logo depois da Ponte da Estrada Piaçaguera-Guarujá. Choveu torrencialmente, o que foi delicioso.

No Canal do Porto de Santos ligamos para a Telma e para a Lu, nossas namoradas, que vieram nos resgatar nas areias de Santos, na Ponta da Praia. Quando anoiteceu voltou a chover forte. Acabamos nos abrigando num ponto de ônibus até elas chegarem. As meninas disseram que ao nos verem de bermuda e sem camisa, descalços, ensopados, com frio, alguns quilos mais magros, mas felizes, parecíamos mais com dois refugiados de guerra.

Distância: 36 km

 
Fonte: Alexandre Purcino e Eric Schonwald