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Tinha um peixe no meio do caminho
Data: 18/03/2009
Por: Luis Vitor Hilsdorf
 

Num final de tarde, em pleno horário de Verão, fui surpreendido com um telefonema da minha filha Maya, então com 16 anos de idade, que foi logo dizendo: “Pai, vamos remar? Esse tipo de iniciativa não é muito comum em adolescentes do sexo feminino que, normalmente, estão às voltas com os seus namoricos, diários secretos, programas da turma, mp3, blogs, orkut, lanchonetes, etc. Imediatamente concordei e combinei de ir buscá-la em casa; poucos minutos depois estávamos a caminho da garagem náutica onde guardo os meus caiaques.

Pegamos um barco duplo, remos, coletes e alguns outros acessórios e, depois de uma pequena sessão de alongamentos, nos pusemos a remar. Havíamos nos deslocado por apenas uns 200 metros, quando minha menina começou a gritar desesperadamente e a sacudir o barco. Virei a cabeça para trás e pude ver a sua expressão de pânico, já com as pernas quase para fora do caiaque, numa tentativa de literalmente “abandonar o barco”. Em meio a toda aquela confusão, estávamos passando em frente à Fortaleza da Barra Grande, local pontilhado por pedras cheias de ostras e mariscos, que certamente iriam produzir algum ferimento na minha sereiazinha a beira de um ataque de nervos.

No meio do caos ela consegue dizer: “pai, tem um peixe querendo me morder aqui dentro”. Eu então, mais aliviado, respondi: “filha, peixe não morde”, imaginando de imediato a reação de uma menina mimada frente a um bichinho saltitante e escorregadio que havia pulado para dentro do caiaque. Daí ela respondeu: “mas esse aqui vai me morder sim”!

De imediato, consegui impedir que ela saltasse na água perto daquelas pedras cortantes e remei com mais vigor por mais alguns metros, até chegar numa pequena faixa de areia. Pulei rapidamente da cabine dianteira e puxei minha filha pelo braço, afastando-a do caiaque. Quando me voltei para olhar dentro da cabine traseira, fiquei espantado e pude entender toda aquela reação de desespero – havia um grande peixe espada, com aqueles dentes enormes e direcionados para o assento do caiaque. Peguei-o pela cabeça e arremessei de volta para o mar, indo então reconfortar a minha filha, que chorava, tremia de medo e repetia sem parar: “nunca mais eu entro num caiaque”. Quando se tem a canoagem como uma espécie de filosofia de vida, ouvir um rompimento desse tipo por parte de um filho é um pouco frustrante.

Mas voltando à cena do final de tarde de Verão, fiquei imaginando que aquele peixe devia estar nadando junto à superfície quando passamos remando com o nosso caiaque e, numa reação de fuga, ele tentou dar uma arrancada para escapar, saltando para fora d’água e para dentro da cabine; uma vez preso naquele espaço confinado, começou a debater-se e virou-se de frente para o assento. Isso não é tão raro assim, pois já havia acontecido comigo antes; porém, tratava-se de um pequenino e inofensivo peixe galo, bem diferente do tamanho e morfologia do espada que assustou a minha filha; quem conhece as características desse peixe, especialmente os maxilares cheios de dentes pontiagudos sabe do que estou falando.

Passado o susto e os soluços da minha filha, olhei para o mar e vi o peixe boiando inerte, de lado e bem no raso. Pensei então em levá-lo para casa como prova do ocorrido, pois iam acabar duvidando da gente, rotulando a nossa experiência como uma “história de pescador”. Entrei na água, estendi a mão para pegar o peixe e, num estalar de dedos, ele sumiu! Acho que foi melhor assim, para o peixe e para a minha menina, pois ela não conseguiria entrar de volta no caiaque com aquele peixe por perto, mesmo sabendo que ele já estaria morto.

Como não havia mais clima para um passeio, resolvemos voltar para nossa base, a poucas remadas daquele local. Mas, para piorar a situação e reforçar a tese da minha pequena de abandonar a canoagem, começou a soprar um vento forte e meio fora de hora, que repentinamente encrespou o mar, enchendo o céu de nuvens ameaçadoras e criando uma atmosfera hostil para quem saiu para uma simples remada em família. Diante daquele quadro pós-traumático e pré-dantesco, tive que aceitar a decisão um pouco precipitada da minha adolescente.

Enfim, depois de vencer aqueles poucos metros de mar encarneirado, chegamos a nossa garagem e fomos logo contando a história do peixe espada para todos que quisessem ouvir, tentando explicar que ele deveria estar ali como uma prova cabal, mas o danado acabou escapando num piscar de olhos. Independentemente da reação das pessoas, que ouviam meio descrentes as peripécias vividas por nós num espaço de tempo tão curto, eu só tinha uma certeza: tão cedo minha filha não voltaria a me acompanhar numa remada.

 
Fonte: Maya Renaux Hilsdorf