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Navio Recreio
Data: 27/09/2008
Por: Luis Vitor Hilsdorf
 
No início dos anos 70, por motivos que não me recordo agora, um pequeno navio de nome Recreio encalhou nas areias da Ponta da Praia, em Santos/SP. Como qualquer criança da época, fiquei extasiado com aquela imagem! Um navio branco e azul repousava mansamente bem ao lado esquerdo do Canal 6. Rapidamente a embarcação transformou-se numa atração para turistas e banhistas. Com o passar do tempo, suas estruturas foram sendo desmontadas e removidas do local.

Passadas quase quatro décadas, os restos mortais do navio, naquela época inacessíveis, voltaram a aflorar no mesmo local! A dinâmica do ambiente marinho acabou trazendo de volta para o tempo presente uma curiosa lembrança da minha infância. Porém, meu saudosismo foi logo trocado pela preocupação e perplexidade! Não tenho mais olhos ingênuos para admirar os destroços do estranho navio fantasma, que de um dia para outro veio dar nas areias da praia. Hoje fico preocupado com a insegurança das pessoas que freqüentam o local, além de não entender tanta demora e burocracia na busca de uma solução.
 
Um jornal local já havia alertado em 03/06/2004, sobre os possíveis riscos de acidentes com banhistas e demais usuários da praia nas ferragens retorcidas e expostas pelo sobe-desce das marés; além disso, a matéria buscava uma solução definitiva para o fato inusitado. A Prefeitura alegou que não podia fazer nada, pois os destroços estavam numa área de competência da Marinha; esta, por sua vez, tentou localizar o então proprietário da embarcação; sem êxito, procurou repassar a responsabilidade para a Autoridade Portuária.
 
Em Dezembro de 2005, através de um artigo publicado em jornal, sugeri que a Prefeitura deixasse a burocracia de lado e tomasse as devidas providências para remover os destroços. Com relação aos custos, o responsável direta ou indiretamente poderia ser cobrado judicialmente no futuro. Meus argumentos estavam pautados no seguinte: guardadas as devidas proporções, os destroços poderiam ser comparados aos detritos que aparecem nas praias todos os dias com o movimento das marés e, dessa forma, deveriam ser removidos pela empresa responsável pela limpeza sistemática da orla da praia. O motivo dessa escolha era devido ao fato de já haver um contrato entre a municipalidade e a iniciativa privada, sendo que tal empresa já possuía todos os equipamentos necessários para o trabalho de remoção, com exceção de um maçarico de corte. Bastava apenas ajustar os períodos de trabalho com as marés mais favoráveis de sizígia, durante a Lua Nova ou Cheia.
 
Os dias foram se passando e, para minha surpresa, num final de tarde de Verão, enquanto remava tranquilamente pelas mansas águas da Ponta da Praia, deparei-me com uma cena que já havia imaginado antes: uma escavadeira, um caminhão com caçamba aberta e uma caminhonete trazendo um maçarico de corte adentravam pela areia da praia e dirigiam-se para os destroços do navio Recreio. Estávamos em plena maré de sizígia e, naquele momento, com uma baixa-mar bem acentuada. Os trabalhos de remoção dos destroços iriam finalmente começar!
 
Apesar de sentir um certo alívio e orgulho em ver a minha idéia sendo posta em prática, naquele momento me bateu um sentimento estranho, pois os restos mortais do navio, reduzidos a um amontoado de ferro retorcido e sem forma definida, seriam retalhados para virar sucata. Como canoísta, navegador e amante do mar, não conseguia deixar de olhar para aquela massa amorfa, sem tentar enxergar uma parte da quilha, das cavernas, dos vaus, do cadaste e da chaparia. Olhei para o meu caiaquinho, coloquei o remo na água e parti meio sem direção, divagando em pensamentos...
 

Obs: Devido à interrupção dos serviços por parte da Prefeitura, os destroços não foram totalmente removidos da areia da praia. Apesar do perímetro no entorno dos destroços estar devidamente demarcado com postes e fita zebrada, ainda existe o risco de acidentes no local.    

 
Fonte: Luis Vitor Hilsdorf