Hoje em dia é muito comum ouvirmos a expressão “Remada Noturna” ou “Remada da Lua Cheia”, principalmente associada a roteiros explorados por empresas envolvidas com Turismo Ecológico ou de Aventura. Não é pequeno o número de pessoas que já passou pela experiência de remar a noite, principalmente em águas iluminadas pela Lua Cheia, quer navegando em caiaques ou canoas, quer fazendo rafting em corredeiras. Diz o ditado popular que à noite todos os gatos são pardos. Mas para os remadores noturnos, todos os gatos estão bem longe, secos e em terra firme.
Remar a noite é uma experiência muito singular, onde as sensações podem variar tanto na forma quanto na intensidade. Para alguns a busca é por momentos de paz e tranqüilidade em águas plácidas e emolduradas pelo brilho do luar; já para outros a procura é pela aventura e descarga de adrenalina provocada pelos turbilhões prateados dos rios encachoeirados. Independentemente da modalidade ou dos objetivos que se tem em mente, alguns cuidados devem ser tomados antecipadamente, para se evitar aborrecimentos com as autoridades ou com a exposição desnecessária ao perigo.
Embora a maioria dos remadores possa desconhecer as normas que regulam o tráfego fluvial e marítimo nas vias navegáveis (represas, lagos, rios, canais e faixa costeira), no que diz respeito à navegação noturna, as embarcações a remo estão enquadradas na Regra 25 (d-II) do RIPEAM – Regulamento Internacional para Evitar Abalroamento no Mar. Trocando em miúdos, essa regra diz mais ou menos o seguinte: navegando à noite, uma embarcação a remo deverá possuir pelo menos um dispositivo luminoso de cor branca (lanterna), que deverá ser acionada caso alguma embarcação se aproxime demasiadamente, evitando assim o risco de colisão. Uma solução simples e prática para cumprir essa regra é a adoção de uma lanterna de cabeça (head lamp), principalmente por deixar as mãos livres para remar; lembrando que ela não precisa ficar acesa todo o tempo. Uma luz estroboscópica também pode ser adotada, desde que seja instalada num local livre de qualquer obstrução. Pode-se lançar mão também de luzes químicas (light sticks), principalmente como pontos de referência entre os participantes da remada.
Como regra geral, seja durante o dia ou à noite, os remadores devem manter-se fora do caminho das embarcações de maior porte, sejam elas à vela ou motor. Em função das dimensões reduzidas e, algumas vezes às cores empregadas, caiaques, canoas e botes infláveis tornam-se pouco visíveis na água, dificultando a sua percepção como objeto, comprometendo assim a avaliação do risco de colisão e a respectiva manobra de evasão por parte das embarcações de maior porte. Assim sendo, não espere para ser visto, tome sempre a iniciativa de manobra e afaste-se do perigo com determinação. Numa situação hipotética de rumos que se cruzam, você pode simplesmente parar de remar ou diminuir a velocidade; já num caso de rumos diretamente opostos, desvie com uma boa antecedência para um dos lados, preferencialmente o direito (regra básica da navegação).
Remando no mar ou nos rios das planícies litorâneas, se você não estiver sob os cuidados de pessoas experientes, uma atenção especial deve ser dada às correntes de marés, principalmente quando se rema nos períodos de Lua Cheia ou Lua Nova, são as chamadas Marés de Sizígia. Nessas ocasiões, o alinhamento entre a Lua, a Terra e o Sol gera maior força gravitacional, aumentando assim a amplitude das marés (movimento vertical das águas), que por sua vez intensifica a velocidade das correntes de enchente ou vazante (movimento horizontal das águas). Na prática, o ideal seria ajustar o tempo e a direção que se pretende remar ao período e fluxo das águas, ou seja, “subir” um rio por um determinado instante de tempo aproveitando a maré de enchente e, na hora de voltar para o ponto de partida, “descer” com a maré de vazante.
Na remada noturna, um outro fator que deve ser levado em consideração diz respeito aos pontos de referência que serão utilizados para marcar o percurso. O ideal é navegar por uma região onde você já esteja bem familiarizado, ou então, iniciar a remada à luz do dia, para poder reconhecer as particularidades do trajeto durante o retorno. Na penumbra da noite, mesmo com mapa e bússola na mão, tomar o caminho errado numa bifurcação de rio ou escolher de forma equivocada uma luz de referência em terra, pode não ser uma coisa muito agradável para quem saiu em busca de paz ou diversão. Sempre que houver oportunidade, consulte os mapas da região a ser navegada, assinalando e memorizando os pontos de referência que podem ser utilizados durante a noite, tais como: torres de alta tensão, pontes, áreas edificadas, bóias luminosas, faroletes, etc.
Por fim, quando se está remando em grupo a noite, é aconselhável que se adote um sistema de contagem, atribuindo-se um número para cada participante. De tempos em tempos cada pessoa fala o seu número num tom adequado ao afastamento entre os barcos; a falta de um número na seqüência dará logo o alarme de que alguém ficou para trás. Pode parecer coisa de excursão de crianças na Disneylândia, mas funciona muito bem, integrando e dando mais segurança ao grupo.
Se você gostou da idéia, agora é só ficar esperando pela próxima noite de Lua Cheia!